• Sem categoria 16.08.2012

    A missão é difícil. Envolve a realização de procedimentos cirúrgicos complexos, que requerem exames detalhados e muita concentração. É preciso estar bem preparado. Com gestos, imagens são ampliadas, exames são visualizados e os melhores trechos de um vídeo selecionados para ajudar nos detalhes da operação. Tudo deve ser feito muito rápido.

    O paciente está sedado. Há cortes, sangue e o risco de infecção. Cada segundo é precioso para reparar uma coluna vertebral ou uma lesão cerebral. A cena não faz parte de nenhum game ou de séries de TV como Plantão Médico e House. Ela é real e já entrou para a rotina do Hospital Evangélico de Londrina, no Paraná, o primeiro centro médico brasileiro a desenvolver um método que utiliza o Kinect em salas de cirurgia.

    Com investimento baixo e o esforço do time de médicos, o hospital criou o projeto Intera, que usa o controle da Microsoft que reconhece movimentos para inovar. E no hospital não é apenas a geração Y que se dá bem com a tecnologia. “Tenho 60 anos, mal uso o computador e me adaptei rapidamente”, diz o neurocirurgião Luiz Soares Koury, um dos responsáveis pelo projeto.

    O Intera não surgiu com pretensões hollywoodianas de revolucionar a medicina. Luiz Koury conta que a solução foi criada para resolver um problema pontual. O centro médico paranaense queria acabar com o uso das chapas em filme e do antigo negatoscópio, um aparelho com iluminação especial que permite a observação das radiografias, usado em medicina praticamente desde a descoberta do raio X, em 1895.

    “O filme radiológico está em extinção”, afirma Koury. “Nós tínhamos a necessidade de criar algo para substituir as chapas por uma versão digital, já oferecida pelos aparelhos diagnósticos em CD ou pen drives.”

    Em determinadas cirurgias, como as neurológicas, as de coluna ou as cardíacas, a equipe médica orienta-se por exames específicos. Para atender a esses casos mais sensíveis, a equipe de tecnologia do hospital apostou inicialmente no uso de tablets. As imagens selecionadas pelo cirurgião poderiam ser carregadas no dispositivo e consultadas durante o procedimento.

    Uma chapa de exame mede aproximadamente 35 centímetros de largura por 45 centímetros de altura, e um painel normalmente comporta no máximo três chapas. Em cirurgias mais complexas, é comum realizar a troca de imagens inúmeras vezes. Como a equipe médica não pode tocar em nada, para evitar contaminação, a exibição dos exames ficava a cargo de enfermeiros ou assistentes.

    Fulano, pega aquele filme que está no envelope e coloca na parede era a frase mais ouvida. “É ruim depender de outra pessoa numa cirurgia”, diz Koury. Os pequenos tablets mostraram-se viáveis, já que podem ser envoltos em plástico esterilizado, permitindo, assim, o manuseio sem risco de infecção.

    Que diabo é isso? Foi durante uma conversa com a equipe de tecnologia, com a solução dos tablets quase pronta, que o uso do Kinect foi sugerido. “Kinéti? Que diabo é isso?”, disse Koury na reunião. Mas logo a ideia de realizar as trocas das imagens dos exames sem a necessidade de tocar em nada pareceu sedutora.

    A equipe de tecnologia do hospital começou então a trabalhar no desenvolvimento do software, que utiliza o Kinect para Xbox acoplado a um PC. As imagens são exibidas em TVs de plasma de 51 polegadas e resolução Full HD.

    Durante quatro meses os desenvolvedores trabalharam com Koury e com o neurocirurgião Marcos Antonio Dias, para ajustar a solução às necessidades dos doutores. “Pedimos um software fácil de usar e prático”, afirma Dias. “Disse para a equipe de TI que eles teriam só cinco minutos para convencer os médicos a substituir o processo que usavam.”

    Os ortopedistas Alexandre Jaccard, 37 anos, e Cesar Daniel Macedo, 30, também se interessaram pela solução e, depois de um dia de treinamento, passaram a utilizar o Intera nas cirurgias de coluna. Como são procedimentos demorados, que geralmente utilizam muitas imagens em cada uma das etapas da cirurgia, a ideia parecia promissora.

    Eles contam que o sistema diminuiu o estresse das trocas de imagens e eliminou o vaivém entre a mesa de cirurgia e a parede onde ficava o negatoscópio. Uma cirurgia com duração média de quatro horas foi reduzida em meia hora. “Um grande ganho do sistema é a riqueza da imagem.

    Como a tela é bem grande, não preciso me deslocar para observar os detalhes de uma vértebra”, afirma Jaccard. “Se quiser, posso aplicar o zoom ali mesmo.”

    Outro grande potencial do Intera é sua capacidade para exibir diagnósticos dinâmicos, como o de cateterismo.

    Desde o início do projeto, em abril deste ano, os quatro médicos realizaram 12 cirurgias usando o Kinect. O controle de jogos foi instalado em quatro salas do centro cirúrgico e, para ampliar o uso da solução, outros 12 profissionais receberam treinamento em junho.

    Até o final de julho, mais 36 pessoas deverão estar familiarizadas com o controle. A aposta do Hospital Evangélico de Londrina é a de que a solução vai mesmo pegar. “Provamos que é possível fazer algo inovador”, diz Luiz Koury.

    Com um sistema que usa a tecnologia de reconhecimento de gestos do Kinect na sala de cirurgia, o Hospital Evangélico de Londrina reduziu em até 12% o tempo de uma operação.

    Veja como ele funciona:

    Posted by Lucio Sergio @ 20:27

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